Coluna Clio

Extensão do Jornal Delfos-CE: http://jornaldelfos.blogspot.com.br/
Clio é a musa da História na Mitologia grega.

Temer na Cadeia Aécio na Cadeia

Temer na Cadeia Aécio na Cadeia
Copiem e colem em seus perfis

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

HISTORIADOR TERÁ PROFISSÃO REGULAMENTADA NO BRASIL


O projeto de lei 7321/06, do deputado Jovair Arantes (PTB-GO), apensado ao PL 3759/04, do ex-deputado Wilson Santos com emenda da deputada Alice Portugal (PCdoB-BA) segue no Senado Federal.

ATEU POETA
Informe-se:

EXPOSIÇÃO PACOTI: UMA HISTÓRIA EM DOCUMENTOS


A exposição histórica Pacoty: uma História em documentos, promovida pela SEMPRE_ Segmento de Estudiosos da Memória e Patrimônio Regional da Serra de Baturité, ficou aberta ao público na antiga galeria Raimundo Siebra, em Pacoti-Ceará, até o fim de janeiro de 2011.

Iniciada em dezembro de 2010, a exposição já ultrapassou os 500 visitastes no primeiro mês.

Agora a exposição se encontra na sede do Campus Experimental da UECE, o antigo seminário

Não deixe de conferir, este acontecimento histórico de dinamização da cultura local da Serra de Baturité, em Pacoti-CE.

ATEU POETA

sábado, 12 de novembro de 2011

FALHA-BUSCA



Tudo é um jogo de alívios e tensões.

A vida é a maior loucura do universo.

Imagine um átomo ciente de si mesmo: Ele existe em nós e isso não faz nenhum sentido.

O universo é o produto da tensão em busca do alívio.

Mas o que seria o alívio? Eu não sei. Isso é tenso. Saber o que é a tensão aliviaria? Talvez.

Há partículas que se procuram enquanto outras não se toleram. Por que isso se dá?

Talvez a tensão seja a própria imperfeição e o alívio a quase-perfeição que a imperfeição atinge.

Num suposto princípio cada molécula era separada no vazio escuro e sombrio, esse era talvez a quase-perfeição máxima, por que se fosse perfeita a matéria jamais se juntaria, por que se há uma busca e uma repulsa é sinal de que algo se completa por ser imperfeito e algo não se mistura por buscar a perfeição numa molécula diferente.

Qual será o limite para a quebra molecular? Chegará a matéria à beira do quase-imaterial? Por que existe limite? Por que existe matéria? Por que a questão? Será o questionamento a minha própria falha-busca pela perfeição em formato de resposta que sanará todas as dúvidas?

Se minhas dúvidas acabarem eu ainda não serei perfeito, pois ainda sou matéria, não posso deixar de ser, por mais que só me fique o pouco de essência que será depois a essência de outro ser enquanto a vida existir a partir dos mesmos elementos que me fazem vivo e se deles ainda se alimentar.

ATEU POETA
12/11/2011
Pacoti.
6h e 31mim

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

PADARIA ESPIRITUAL: O SERTANEJO COMO UM SÍMBOLO DE NAÇÃO


(Acima fotos da Paria Espiritual 1ª geração, 1892-1894 e Pararia Espiritual 2ª 1894-1898 geração)
PADARIA ESPIRITUAL: O SERTANEJO COMO UM SÍMBOLO DE NAÇÃO
JOSÉ AROLDO GONZAGA ARRUDA FILHO
Historiador

RESUMO

Foi mostrado, neste artigo, que a Padaria carregava a idéia republicana de forjar um símbolo novo para o Brasil, escolhendo, dessa forma, o interiorano, sobretudo o sertanejo para suprir essa carência. Embora que seu ar irreverente mostrasse apenas um desejo de transgredir a ordem, mas não o fizeram, o que de fato a Padaria Espiritual combateu foi o estrangeirismo exacerbado que predominava a capital cearense de fim do século.

Embora fosse um grupo original e que se sobressaiu mais que o restante, os pensamentos não convergiam entre os padeiros, tendo até quem defendesse o progresso, como Antônio Sales, enquanto outros o combatiam, como José Carlos Júnior, mas, mesmo assim, grande parte dos padeiros estava interessada era em forjar um símbolo nacional, no caso o sertanejo, além é claro, de se sobressair como escritor, uma missão muito difícil em todas as épocas. E por fim, fica claro que os padeiros não odiavam a burguesia, o que eles desejavam era uma meritocracia que os valorizasse como literatos intelectuais que eram, e fazer um jornal de repercussão de Norte a Sul foi o meio que esses intelectuais encontraram para dizer “eu existo”.

Palavras chave: Padaria, símbolo, nação, sertanejo, republicana

INTRODUÇÃO
No final do século XIX, 1892-1898, em Fortaleza, surgiu um grupo com a típica irreverência do Ceará, chamado Padaria Espiritual com o intuito de ser reconhecido nacionalmente e tornando-se ao mesmo tempo um dos nossos símbolos nacional, regional e literários.

Idealizado por Antônio Sales, que tratou de fazer um regimento interno e ser o primeiro presidente, ou Padeiro-mor, o grupo “incomodou burgueses e autoridades constituídas” por seu sarcasmo altamente crítico e refinado que agradou escritores de outros Estados com Raimundo Corrêa , que escreveu na crônica “Carta à Padaria”, um elogio à “rara coragem” de publicar livros sem cotação no mercado local.

Todos os integrantes desse grêmio literário eram chamados de “padeiros”, sua primeira sede foi o Café Java, em 30 de maio de 1892, local ainda frequentado mesmo depois que se mudou a sede oficial.


Teve o grupo originalmente vinte fundadores, depois recebeu mais catorze, em 1984, ano em que a Padaria se reestruturou. Todos usavam um criptônimo, geralmente formado de palavras em tupi, nacionais ou nomes populares. Segue a lista que Sânzio fez na edição fac-símile do jornal “O PÃO” :

Primeira fase:
1-Jovino Guedes (Venceslau Tupiniquim) 2-Antônio Sales (Moacir Jurema) 3-Tibúrcio de Freitas (Lúcio Jaguar) 4-Ulisses Bezerra (Frivolino Catavento) 5-Carlos Vítor (Alcino Bandolim) 6-José de Moura Cavalcante (Silvino Batalha) 7-Raimundo Teófilo de Moura (José Marbri) 8-Álvaro Matins (Policarpo Estouro) 9-Lopes Filho (Anatólio Gerval) 10-Temístocles Machado (Túlio Guanabara) 11-Sabino Batista (Sátiro Alegrete) 12-José Maria Brígido (Mogar Jandira) 13-Henrique Jorge (Sarasate Mirim) 14-Lívio Barreto (Lucas Bizarro) 15-Luís Sá (Corrégio Del Sarto) 16-Joaquim Vitoriano (Paulo Kandalaskaia) 17-Gastão de Castro (Inácio Mongubeira) 18-Adolfo Caminha (Félix Guanabarino) 19-José dos Santos (Miguel Lince) 20-João Paiva (Marco Agrata).

Segunda fase:
1-Antônio de Castro (Aurélio Sanhaçu) 2-José Carlos Júnior (Bruno Jaci) 3-Rodolfo Teófilo (Marcos Serrano) 4-Almeida Braga (Paulo Giordano) 5-Valdemiro Cavalcante (Ivan d’Azof) 6-Antônio Bezerra (André Carnaúba) 7-José Carvalho (Cariri Braúna) 8-X. de Castro (Bento Pesqueiro) 9-José Nava (Gil Navarra) 10-Roberto Alencar (Benjamin Cajuí) 11-Francisco Ferreira do Vale (Flávio Boicininga) 12-Artur Teófilo (Lopo de Mendoza) 13-Cabral Alencar (Abdul Assur) 14-Eduardo Sabóia (Brás Tubiba)


Mostraremos neste artigo quais os símbolos que a Padaria Espiritual elegeu enquanto referência prática comum a intelectuais no século XIX.

Na época o que se sobressaiu à produção literária da Padaria Espiritual foi a crítica sarcástica. Esse grêmio literário manteve contato com demais intelectuais de outros Estados da União. Daí a hipótese de ter sido inspiração para a Semana de Arte Moderna em São Paulo, uma vez que o pré-modernismo teve justamente a mesma ideia de criar uma arte puramente nacional. No entanto, no seio do grupo estiveram presentes influências externas ao Brasil como o Simbolismo que surge aqui no Ceará em primeira mão por um dos padeiros, através do livro "Phantos " de Lopes Filho.


No Ceará, por volta de 1890, os eflúvios simbolistas obtiveram bastante notabilidade naquele diversificado meio literário e intelectual. Surgido entre as manifestações realistas e românticas, o Simbolismo cearense inaugurou-se com duas importantes obras: O Phantos, de Lopes Filho, publicado em 1893 – a primeira obra simbolista impressa no Ceará e, comprovadamente, no Brasil – e, em segundo lugar, o Dolentes de Lívio Barreto.

Além de estéticas literárias como o Simbolismo, muitas influências vinham da Europa, principalmente da França, dentre as modas e padrões higiênicos de comportamento que criava em Fortaleza uma ideia de status sobre a classe média e os intelectuais que se uniam em agremiações.

Em certa medida, pode-se dizer que uma delas é a Padaria Espiritual, pois alguns de seus integrantes como Antônio Bezerra, Valdemiro Cavalcanti e outros fizeram parte dessas camadas sociais mais abastadas. Entretanto, o grupo fazia restrições em seu estatuto a menções de coisas ou palavras estrangeiras e pregava o ódio à burguesia. Neste sentido cabem as perguntas: em que reside essa contradição? Em que reside esse ódio à burguesia? Não se trata de um nacionalismo oculto na Padaria Espiritual? Qual a idéia de nação que esse grupo tinha no século XIX, momento em que se definia novos símbolos para a sociedade brasileiras com o advento da república?

A INFLUÊNCIA EUROPÉIA NA NOSSA HISTÓRIA

A Inglaterra, durante a Revolução Industrial, vira soberana dos mares e expande suas vendas para os mercados mundiais graças ao acúmulo de capitais ― em grande parte também graças ao comércio com Portugal, que passou de mão-beijada o ouro que extraía do Brasil para os cofres ingleses, pelas Cruzadas que a possibilitou a grande escala de vendas do algodão para os soldados pobres e pelo capital acumulado no tráfico de escravos ― o que a fez investir em estradas de ferro e numa forte armada que faziam sua economia ir de vento em popa. A Inglaterra precisa de consumidores e por isso obriga os países a libertarem os seus escravos e proíbe o tráfico escravocrata.

No século XIX a Inglaterra necessitava de algodão, além de outras matérias primas que ela buscava em outros locais, por esse motivo nasce o comércio com o Ceará, por que aqui se produzia algodão de qualidade e por ser mais próximo do que a Índia, a outra fonte para essa matéria prima.


Todos os pontos que produziam matérias-primas para a Inglaterra receberam estradas de ferro, inclusive Fortaleza, ― 2ª estrada de ferro do Brasil ― que vem a ser o primeiro pólo econômico do Ceará, sendo Sobral o segundo, sofrendo assim um surto de construção desenfreada, além de uma forte influência européia. A elite sobralense, nesse período, manda seus filhos estudarem na Inglaterra, através do porto da Baleia, em Itapipoca, tendo nome de rua em inglês em Sobral e até o auto-bus (o ônibus escolar inglês), quando surgem os Gomes e a elite do Vale do Jaguaribe produtora de leite e carne.

Até então, o Norte só havia sido colônia de exploração, ― quase todas as cidades do Ceará surgiram de aldeamentos missionários, onde os índios não poderiam ser mortos, ― enquanto o sul foi uma espécie de colônia de povoamento, com a migração de açorianos, ilha de Açores dominada por Portugal, mas solteiros eram barrados, (a cidade de Florianópolis [Santa Catarina] era ponto de abastecimento dos navios quando iam buscar prata no “mar del Plata”, assim como São Francisco do Sul [Paraná] e outras cidades do sul.) entre os séculos XVI e XIX, e talvez por isso, seja mais desenvolvido que o restante do país. Outros que também migraram para o sul do Brasil foram italianos e alemães, com pequenas propriedades familiares (também para Santa Catarina e Paraná).

Os ingleses é que sufocaram as rebeliões separatistas no Brasil, como a Confederação do Equador, a Balaiada, Sabinada e outras, exceto a Farroupilha, onde Garibaldi ajudou e volta para a Itália para a unificar, daí, italianos migram para o Brasil depois; além dos alemães, a Alemanha só se une num Estado em 1989.

A influência de pensamentos europeus é inevitável no Brasil e esses pensamentos importados fazem parte em vários momentos da nossa história, inclusive na Confederação do Equador.

As rebeliões de caráter centrífugos, ocorridas no Brasil no período que cobre os anos do século XVIII e a primeira metade do século XIX, inscreveram-se no quadro um tanto difuso para a realidade brasileira pré e pós-independência das idéias liberais importadas da Europa. Esse momento expressou a crise em que estava mergulhado o Antigo Sistema Colonial mercantilista, na medida em que o capitalismo industrial buscava redefinir as relações metrópole-colônia no sentido da expansão dos mercados.

Esse processo foi direcionado, internamente, no bojo dos conflitos e contradições entre as frações que compunham as elites dominantes do Brasil no caminho do amoldamento do Estado nacional .

Depois da Independência, se é que assim podemos chamar um governo imperial com um rei português a governar o que hoje chamamos de país de terceiro mundo, sob o governo agora de Pedro II, proclama-se a República através de um golpe militar encabeçado por Benjamim Constant, onde assume o Marechal Deodoro da Fonseca e em seguida o Marechal (de ferro) Floriano Peixoto, que com seus excessos acarretou as revoltas Federalista e da Armada (ou Chibata). Depois dos marechais assume o primeiro civil, Prudente de Morais, com a Guerra de Canudos como marca mais forte do período que durou o seu governo.

Os últimos anos do século XIX foram significativos para a história do Brasil. Iniciava-se uma fase instável de transformações, motivada pela crescente penetração de capitais estrangeiros (...). Enquanto as populações urbanas das grandes capitais, sobretudo no sul, viviam um surto de desenvolvimento nunca visto, as populações rurais continuavam na mais desolada miséria.

Diante desse panorama econômico e social marcado pelo contraste, surgiram movimentos de revolta popular (...)


Dentre eles destacou-se o ocorrido nos sertões da Bahia, entre 1896 e 1897, durante o governo de Prudente de Morais .

Além da questão do Encilhamento, ainda no governo de Prudente de Morais, encabeçado por Rui Barbosa, que manda emitir muito dinheiro e com isso o Banco empresta dinheiro para aplicadores da Bolsa que vendem as ações pelo dobro antes mesmo de darem 10% de lucro, o que causou uma enorme dívida interna, e com isso a inflação, a queda desenfreada no câmbio que facilita a prática de estrangeiros virem montar suas empresas no Brasil, uma vez que a nossa moeda estava superdesvalorizada. Com isso, muitos enriquecem e empobrecem da noite para o dia, exceto os burgueses estrangeiros que só ascendem.

Houve, de Norte a Sul, um surto de epidemias, causado em parte pelas migrações que inchavam as grandes cidades e pelas construções desenfreadas e desorganizadas do dito progresso que construía sem um bom planejamento de saneamento básico.

(...) se por um lado as populações urbanas vivam a urbanização e o progresso, por outro, sofriam as conseqüências da rapidez com que se via esse processo: dificuldade de moradia, precárias condições sanitárias e epidemias.

No campo, onde viviam 80% da população, a situação era bem pior, sobretudo no Nordeste, pois as condições naturais adversas eram um agravante. A grande seca de 1877 a 1879, por exemplo, foi responsável por uma migração massiva de nordestinos. E isso se repetiu em 1888, 1889, 1900 e 1915. (...) Pelo menos meio milhão desses nordestinos dirigiu-se para a Amazônia, entre 1880 e 1910, atraído pelo surto da borracha. Outros migraram, sem sucesso para o Sudeste, onde já havia a forte presença do imigrante europeu. (...)

É provável que um dos padeiros, Antônio Bezerra, da segunda fase, tenha ido para a Amazônia nesse período do surto da borracha. Percebemos isso pelo texto “Carteira”, onde Bezerra escreve e assina sem o pseudônimo, (a saber: André Carnaúba) uma despedida onde mostra seu profundo amor à pátria, à república, ao Ceará e as associações das quais participou ― Instituto do Ceará, Academia Cearense, Padaria Espiritual, Centro Literário, Propagadora da arboricultura, Conferencias de S. Vicente de Paulo e Congresso de Sciencias Praticas.


< Devendo partir amanhã para a capital do Amazonas, donde talvez não volte mais, (...)


As minhas amadas associações ― Instituto do Ceará, Academia Cearense, Padaria Espiritual, Centro Literário, Propagadora da arboricultura, Conferências de S. Vicente de Paulo e Congresso de Sciencias Praticas, os mais sinceros votos pelo seu engrandecimento e prosperidade, sobretudo pela ultima que distribui instrução gratuita às crianças pobres empregadas nas fábricas e officinas, da qual fui indignamente presidente por tempo de dois annos. mantendo-a com sacrifício, e invoco a generosidade dos meus patricios: não deixem desaparecer esta sociedade, que presta o maior serviço a nossa patria. leventando o espirito das classes pobres, dos homens d’amanhã; (...)


E a terra de meu berço, o meu idolatrado Ceará. ao qual desde criança dediquei o meu esforço e vitalidade. servindo-o como voluntario da Patria. como abolicionista. como republicano, como professor de preparatorios durante desoito annos gratuitamente: como jornalista. como escriptor em seis livros em que procurei-lhe o renome e a gloria. como historiador salientando-lhe os seus nobres feitos e grandezas naturaes, como empregado de Fazenda em inúmeras comissões ao interior. a Pernambuco e ao Rio de Janeiro, na Exposição preparatoria de Chicago, que pagou meus extremos de filho com muita ingratidão e injustiça (...) toda vez que a minha querida terra precise de meus serviços, estarei ao seu lado, com extremado amor que lhe consagro, para defender, ainda á custa da propria vida, a sua soberania e integridade.

Outras características do século XIX são as múltiplas oligarquias geradas pelo coronelismo, que sustentava o voto de cabresto ― que, de certo modo, ainda existe a olhos vistos no interior, aliado a compra de voto em larga escala, o que é um crime de prática comum. Contam-se aqueles que não recebem voto por troca de favores em vez da competência que deveriam ter para atuar em tais cargos de “representação pública” ― e que para alguns é a causa do cangaço iniciado por Antônio Silvino ( 1896 ― 1914) e do messianismo, como no caso de Antônio Mendes Maciel, o “Conselheiro” cearense em Belo Monte, mais conhecido como “Canudos”; episódio conhecido entre os mais sangrentos da nossa história, com a guerra civil contra o governo Prudente de Morais, (1896 ―1897) que ganhou repercussão graças ao livro de Euclides da Cunha, “Os sertões”.

Indiferente às crises políticas das quais pouco tinha notícia, o homem do campo vivia num mundo à parte: isolado dos meios de comunicação e transporte ― as ferrovias só atingiam as zonas de interesse econômico ―, esquecendo pelas sociedades urbanas e praticamente abandonado pelas autoridades federais e estaduais.

O analfabetismo, a fome e o abuso de autoridade exercido pelos coronéis faziam com que o sertão fosse um espaço muito diferente do resto do país. Ali vigoravam apenas as leis de cada um, baseadas na violência e no desmando.

O sertanejo, então sem perspectivas, tinha poucas opções de sobrevivência. Uma delas era o cangaço (...)
Os cangaceiros, ainda que de forma inconsciente, rebelaram-se contra a situação opressiva e miserável do sertão (...)


Uma outra opção para o sertanejo era ingressar em seitas religiosas. (...) pois a extrema miséria nordestina favorecia o surgimento de movimentos messiânicos.

UM IDEAL SERTANEJO DE NAÇÃO

Primeiramente, de acordo com o que foi percebido com a leitura do jornal “O PÃO”, a Padaria, assim como tantos outros meios intelectuais no Brasil, idealizou o sertanejo como figura típica, apresentando-o como um meio para defender a manutenção da cultura em detrimento do estrangeirismo da época. Esta medida está ancorada nos textos românticos de J. J. Rousseau, sobre o “homem natural”. ― Para Rousseau, o homem nascia bom e era corrompido pela sociedade, pela criação da propriedade privada; para ele, saúde, educação e habitação eram deveres do Estado.

O povo seria a fonte de toda a legitimidade.
No texto “Carta à Padaria” de José Carlos Júnior, da Padaria Espiritual, o jornal “O Pão” o padeiro critica a imitação que os homens do interior fazem aos da cidade, e estes por sua vez copiam a França, Inglaterra ou Espanha.


Não há peior desgraça para uma pequena cidade do interior do que chegar-lhe o caminho do ferro às portas. (...)
Ponham-lhe um caminho de ferro e hão de ver.


Vão-se a poesia e singeleza dos costumes, e começa o monstro de fogo a trazer da capital diariamente o espirito de imitação, (um espirito mais nocivo do que a canna) que faz com que as cidades pequenas vivam a macaquear continuamente as grandes da maneira mais burlesca e aleijona.


Não tardam vir chegando as cartólas e os pianos; besuntam-se as matutas com pó de arroz e os matutos com literatura, e apparecem pelas parêdes a torre Eiffel e o homem do bacalháo; o barbeiro adorna a sala com as inevitaveis odaliscas de physionomia ingleza ou hespanhola. Os trombones da localidade põem-se a estudar mezes inteiros a mais sediça das polkas em voga na capital; instala-se um club dansante, e um Palhabote em miniatura começa a esvasiar cerveja nas tripas da população.


(...) e alli está uma cidade civilisada e uma sociedade burgueza em toda a hediondez da expressão.


De tudo isso porem nada é tão (...) ridículo como (...) a linguagem de certos habitantes dessas cidadesinhas em presença de gente da capital. (...)
E vae sempre alteando a voz (...) e encompridando os vocábulos, muito embora lhes altere os sentidos, dizendo movimentação por movimento, progressividade por progresso, indiferentismo por indiferença, relutancia em vez de luta e assim por diante. (...).


Essa crítica é feita por que José Carlos Júnior vê no ato de imitar a pura perda da identidade. Contrapõe “civilidade” a marca cultural, fazendo do próprio trem um símbolo dessa “progressividade” sobre o qual ele descarrega todo o seu horror, enquanto idealiza a cidade pequena e distante como fonte de saúde, calma e beleza; coisas que, para ele, se perdem com o dito “progresso”.

Nesse âmbito, acreditamos que os integrantes da Padaria Espiritual na Fortaleza do século XIX, ― Sob o gládio da “progressividade”, para usar o termo de José Carlos Júnior, do poder local, que recolhia loucos e leprosos em espécies de campos de concentração e explorava a mão-de-obra dos pobres migrantes, num afrancesamento físico e intelectual. ― levantaram a bandeira de ódio à burguesia, movidos mais por esse ideal de imagem do nacional mestiço, no caso, o serrano e, principalmente, o sertanejo; figura mais tarde relembrada por Euclides da Cunha em “Os sertões”, onde narra o massacre ao destemido povo de Belo Monte, hoje conhecido por “Guerra de Canudos”:

(...) O brasileiro, tipo abstrato que se procura, mesmo no caso favorável acima firmado, só pode surgir de um entrelaçamento consideravelmente complexo.

Teoricamente ele seria o pardo, para que convergem os cruzamentos do mulato, do curiboca e do cafuz. (...)


Sabe-se que essa preocupação ocorreu em outros momentos da História, Monteiro Lobato na imagem do “Jeca Tatu” e no cinema Mazaropi, em seu personagem mais famoso, “Chico Fumaça”, fazem do caipira uma imagem de nação. José de Alencar, na busca de uma imagem-símbolo, fez do índio um herói nos clássicos “Iracema” e “Guarani”. A índia Iracema e o índio Pery tinham força sobre-humanas, o que nos faz crer num índio forte e corajoso, que podemos tomar por referencial a ser seguido, ou pelo menos lembrado, por todos os brasileiros, ou pelo menos pelos
que tinham acesso à leitura.

Para negar os ideais franceses era preciso implantar novos que os subjugassem, por isso, os padeiros vão ressaltar as festas antigas a denunciar toda a estranheza causada pela cidade em crescimento como a perda da identidade em si, sob um olhar melancólico daquelas coisas que nunca mais voltarão.

Viam na irreverência a melhor forma de combate. Assim como um soldado vai à guerra defender seu país, os boêmios lutavam com a intelectualidade num jornal com o nome dum alimento que permeia todas as classes, gritavam ódio à elite, mas, no fim, queriam seu respeito, e viravam ele próprios, boêmios cearenses, uma imagem de nação para o Ceará e para o Brasil.

OS PADEIROS NÃO ODIAVAM A BURGUESIA

Os tempos se modernizavam e os intelectuais apareciam em inúmeras agremiações, o que acabou por se criar a própria Academia Cearense (1894), que mais tarde veio a ser a Academia Cearense de Letras. Muitos fizeram parte de pelo menos duas agremiações; como Antônio Bezerra, que fora do Clube Literário (1886), da Padaria Espiritual (1894) e da Academia Cearense (1894).

Outro padeiro na Academia Cearense foi José Carlos Júnior que também fez parte do Clube Literário, assim como Antônio Sales, o futuro criador da Padaria, Rodolfo Teófilo e o próprio Antônio Bezerra (2ª. Fase).

O Centro Literário (1894 a 1904), o outro grande grêmio da época, teve, além de Antônio Bezerra e os dois expulsos da Padaria e possíveis fundadores do Centro, Temístocles Machado e Álvaro Martins, pelo menos mais cinco padeiros: Jovino Guedes, Rodolfo Teófilo, Almeida Braga, Lopes Filho e Adolfo Caminha, este último viria a ser expulso do Centro.

Apesar dos membros oscilantes e de ser da mesma época de inúmeros outros grupos intelectuais, a Padaria foi singular.

Em termos literários, dois artigos assinalam uma postura pré-modernista da Padaria que só seria retomada com a Semana de Arte Moderna de 1922.

Enquanto o art.14 proíbe “o uso de palavras estranhas à língua vernácula”, o art.21 estabelece que a Padaria julgará “indigna de publicidade qualquer peça literária em que se falar de animais ou plantas estranhas à fauna e à flora brasileira, como cotovia, olmeiro, rouxinol, carvalho, etc”.

Isso significa que, apesar de serem tão modernos quanto os demais grupos sociais médios e altos, de admirarem as novidades e consumirem as influências vindas de fora, os padeiros rejeitavam a imitação macaqueadora e apostavam numa produção literária com matérias e dizeres puramente nacionais.

Na crônica “Os quinze dias” de “O PÃO”, José Carvalho narra, com ar de deboche, as melhorias futuras do Ceará, denunciando a emigração do nosso povo para o ciclo da borracha na Amazônia.

Carvalho ressalta seu patriotismo no fim do texto, quando deseja que a taxa de cambio se equilibre, embora que de forma sarcástica ― “(...) aproximai os tempos em que no Brazil as pedras e as folhas tambem tenham o valôr de dinheiro, pra ver se assim subirá o nosso câmbio, e se poderão equilibrar as finanças do meu paiz (...) ” ― e seu bairrismo, quando imagina o Ceará importando mão-de-obra ao invés de exportar como sempre, além de deixar claro seu clamor ao deus cristão quando ressalta sua fé no padre Keneipe, que faria sua “cura d’água” a começar com seu instituto na antiga Conceição, que hoje é Guaramiranga.


(...) o Ceará tem experimentado um (...) provavel melhoramento de sorte.


(...) o Amasonas esgotou-lhe todo o seu precioso sangue. decepou-lhe os vigorosos braços e deixou-lhe exausto e debatendo-se quasi nas convulsões da miséria. Hoje o Ceará ensaia levantar-se e levantar-se-ha mercê de Deus. (...)


Está bem começada a (...) extração da borracha dos nossos infindos maniçobaes (...) está quasi na mesma proporção do Amasonas e é só isto suficiente para estancar a emigração e constituir inestimavel riqueza (...)


Abramos nossos braços para fraternalmente apertar as imigrantes coloniais polacas e em breve o Ceará será contado no número dos mais felizes estados da União Brasileira. Por minha parte, para esse fim, empenho todas as forças do patriotismo de que disponho e até se preciso poderei firmar um pacto com o governo (...)


E’ que vem nos chegando à porta com o Barão de Ibiapaba o prodigioso Padre Keneipe que tem assombrado o mundo com sua cura d’agua (...) Cearasinho preparai-vos para não fazer uma triste figura (...)


Ao lado dos resultados felizes do Instituto Keneipe que será levantado na Conceição de Baturité (...)


(...) quem haveria de dizer que veria um tempo em que todos os nossos males seriam curados com água(...)

Apesar da Padaria ser formada por “ rapazes oriundos dos setores médios e baixos da capital e do interior”, ela provou que revolução não se faz apenas com levante de armas, mas também com boas idéias. E nunca sem coragem.

O ódio à burguesia é também ódio ao estrangeiro, uma vez que eram estrangeiros os novos grandes burgueses no Encilhamento, quando Rui Barbosa propõe um plano econômico para gerar lucro mas que na prática só quebrou o país.

Mas na verdade não se trata de fato de ódio e sim de defender a identidade nacional que se perdia perante o estrangeirismo da época, o que aliás é uma constante na história do Brasil valorizar o que é de fora em detrimento do nacional.

(...) A Padaria elegera os modos de vida dos habitantes dos sertões e vilarejos como definidores do caráter nacional. (...) procurou elaborar uma identidade nacional ao seu público leitor, naqueles tempos em que os intelectuais e políticos buscavam uma imagem para representar a nação brasileira.

Os padeiros não odiavam a burguesia, pelo contrário, ansiavam fazer parte dela. Também não poderiam odiar os estrangeiros, em quem se espelhavam intelectual e culturalmente falando, só queriam que acabasse o imitar sem razão de ser, o que eles chamavam de macaqueação, e ao mesmo tempo não desejavam a “progressividade” que lhes roubava a calmaria dos velhos tempos a transmutar as tradições enquanto as capitais cresciam frenética e desordenadamente.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A Padaria Espiritual foi mais um dentre os tantos grupos literários de sua época. Marcou mais que os outros pela originalidade, por ter alcançado repercussão nacional, assim como pretendido, e, principalmente, pela irreverência que deixava o governo local de olho, embora que o grupo não tenha sofrido repressão, o que se deve em parte pela repercussão nacional.

Não existia entre os poetas um gênero literário apenas, nem um único estilo de escrita, ou mesmo um pensamento político uníssono. Entretanto, uma ideia pelo menos os unia e era muito forte; a ideia de recuperar ou criar uma marca nacional que ultrapassasse as influências do estrangeirismo que o dito progresso trazia.

Os padeiros chamaram atenção ao pregar ódio à burguesia, aos alfaiates, à polícia e aos padres, nem por isso chegaram a burlar a lei nem a odiar de fato tal burguesia. O intento era acima de tudo se fazerem respeitar pelas classes superiores, onde desejavam se encaixar. Também não deixaram de ser católicos, pois desejavam que as antigas festas de igreja não acabassem e vez por outra mostravam sua reverência aos santos e ao deus cristão.

Podem ter existido outras questões, mas acreditamos que o nacionalismo por trás da Padaria é que a fez tão forte e determinada. E embora com um curto período de existência, ficara imortal para a História. Servindo de exemplo para os intelectuais, literatos e historiadores atuais, mostrando que a própria escrita pode ser uma forma de ação política.
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FONTE:
PONTE, Sebastião Rogério. “A Belle Époque em Fortaleza: Remodelação e controle” IN: SOUZA, Simone (coord.) História do Ceará. Fortaleza. Fundação Demócrito Rocha 1995. Página 177. 1º parágrafo.

CORRÊA, Raymundo. “Carta à Padaria”, jornal “O PÃO” nº22. 15/08/1895, página 6.

AZEVEDO, Sânzio( org.). O PÃO da Padaria Espiritual. Fortaleza. Imprensa Universitária da Universidade Federal do Ceará. 1982.

PASSOS, Gleudson. Ao centenário do Dolentes. In: Relicarius, poemas da incerteza/ Reinaldo Oriá (org.) ― Fortaleza: LRC, 2002. Página 9.

ARAÚJO, Maria do Carmo R. A participação do Ceará na confederação do Equador. IN: SOUZA, Simone. HISTÓRIA DO CEARÁ. Fortaleza. Fundação Demócrito Rocha. 1995. Página 145.

COIN, Cristina. A Guerra de Canudos. São Paulo-SP. Ed. Scipione. 1994. Página 9.
Idem. Páginas 13 parágrafo 3 e página 14, parágrafo 1°.

BEZERRA, Antônio. “Carteira”, jornal “O PÃO” n°34. Fortaleza, 30/09/1896. Página 8.

COIN, Cristina. A Guerra de Canudos. São Paulo-SP. Ed. Scipione. 1994. Página 16.

JACY, Bruno. “Carta á Padaria”, jornal “O PÃO” n°11. Fortaleza, 1/3/1895.

CUNHA, Euclides da. 1866-1909. Os Sertões/ Euclides da Cunha. Apresentação: Ângela Gutiérrez. Fortaleza: ABC Editora, 2002. Vol.I Pág. 66. 2º. Parágrafo.

AZEVEDO, Sânzio de. “Grêmios Literários do Ceará”. In: SOUZA, Simone. História do Ceará. Fundação Demócrito Rocha.

PONTE, Sebastião Rogério. “A Belle Époque em Fortaleza: Remodelação e controle” IN: SOUZA, Simone (coord.) História do Ceará. Fortaleza. Fundação Demócrito Rocha 1995. Página 177. 6º. Parágrafo.

BRAÚNA, Cariry. “Os quinze dias”, jornal “O PÃO" no35.Fortaleza, 15/10/1896, pág.1.
Idem.

CARDOSO, Gleudson Passos. Padaria Espiritual: Biscoito fino e travoso.2ed.Fortaleza: Museu do Ceará/Secretaria de Cultura do Estado do Ceará, 2006. Página 34. 1º. Parágrafo.

Idem. Página 23. 1° parágrafo. 

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

O PRIMATA


Somos seres simbióticos interdependentes, logo, a liberdade é em si mais uma sensação do que um fato. Todavia, é uma sensação que deve ser buscada. Primeiro, por que está em nosso instinto de sobrevivência tentar superar o meio para assumir controle sobre o mesmo.

Segundo, por que se você não se sente livre não saberá ser feliz, mesmo que de fato esteja aprisionado, mas pelo menos se o seu pensamento não estiver restringido por censura, você se sentirá menos brinquedo e mais humano.

A maioria se sente livre na segurança, mesmo que pra isso seja preciso abrigar-se no terror de um ser superior que tanto lhe fornecerá amor em troca de subserviência. Mas, na verdade nunca houve troca por que o amor não se dá, se tem por alguém ou algo, é um sentimento pessoal que não pode ser coletivizado, contudo, a cultura de massa inter-social insiste em pregá-lo nas mentes mais desavisadas como o único fim e meio da vida através de uma idéia subserviente de liberdade que de fato nunca houve.

Esse primata primo do macaco tem uma mente tão potente, entretanto, essa potência é empregada erroneamente na intransigência em vez de reflexão. O primata não entendeu que servidão não é liberdade, não é a verdade, e mesmo que fosse, seria uma verdade da qual o homem livre fugiria para ser feliz.

Não estamos prontos para o confronto de culturas, embora ele se dê em escala cada vez mais elevada e num grau de inevitabilidade surpreendente. Não buscamos nossa semelhança no sujeito ao lado, pelo contrário, focamos de forma intensa nas diferenças de modo a formar intensa certeza de que os nossos hábitos estão corretos e criamos uma demonização do outro como se nós mesmos não fôssemos os outros do próximo.

Idéias que há milênios dizem aproximar, só aproximam uma tribo para a guerra, um país para a dominação geral, destruição suprema da espécie. Que importa dominar o mundo? Por que não o deixa viver? Por que você quer dominar o pensamento do outro, intervir até mesmo na sua falta de fé? Isso é o maior dos egoísmos imperdoáveis que como Deuses Si Mesmo que não aprendemos a Nos sentir, mas que de fato somos, não podemos esquecer.

ATEU POETA